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domingo, 11 de novembro de 2012

Negri: “A pobreza não é déficit de ser; o verdadeiro déficit de ser é a solidão” | Blog do Rovai

Negri: “A pobreza não é déficit de ser; o verdadeiro déficit de ser é a solidão” | Blog do Rovai
do La Nacion argentino comtradução Vila Vudu

Antonio Negri é filósofo que atravessa as transformações e os debates do século 20 a partir de uma relação especial entre consistência conceitual e militância política. É pensador que rejeita a imagem do intelectual como ‘profeta’ e que, ao mesmo tempo, valoriza a capacidade da multidão heterogênea e dinâmica.
Sua leitura de Marx vai além do Estado como figura organizadora e reatualiza a ideia de trabalho como capacidade para criar, estabelecer vínculos e organizar novos modos de institucionalidade. Essas novas instituições não se baseiam no pressuposto de que o homem seja “o lobo do homem”, mas numa concepção afirmativa e igualitária das capacidades. Na prisão, encontrou em Spinoza seu principal aliado; ali refletiu sobre a solidão e a comunidade. Chegou a dizer que “é possível, talvez, construir o futuro de dentro do cárcere.”
Em tempos em que a política como potência da multidão é o único antídoto aos fundamentalismos – entendidos como imposição de valores transcendentes em todas as ordens –, Negri defende que “a resistência dos corpos produz a subjetividade não numa condição isolada e individualista, mas num complexo dinâmico no qual se concatenam as resistências dos outros corpos”. Assim, liga a resistência contra novas formas de exploração à produtividade dos corpos coletivos e singulares (experiências populares, organizações sociais e diversos modos de associação entre pessoas). O trabalho não pode ser parcializado nem dividido como em outros tempos; por isso, Negri recorre a uma noção ampliada de corpo como capacidade de compor-se para aumentar a potência; e a um novo olhar sobre a inteligência como ferramenta fundamental.
O Comum supõe tanto as riquezas do mundo material como o conjunto da produção social, os chamados bens naturais (conhecimentos, linguagens, códigos, informação, afetos e suas consequências).
Se o Comum é condição de toda produção de liberdade e de inovação material, são imprescindíveis novas formas de organização, novas instituições emergentes da multidão, que possibilitem que todos tenham acesso e usem o que seja produzido, além de liberdade de expressão e interação. O controle privado, como o controle público, limitam as possibilidades da esfera comum, na medida que separam capacidades, dirigem os movimentos e distribuem funções a partir de lógicas pré-estabelecidas, que foram transformadas em credos durante a história da modernidade.
Negri entende que Spinoza é o subsolo da modernidade, porque ali há uma fonte permanente e contínua de ruptura contra a vontade de dominação e suas modalidades do medo e da esperança. Na fonte de ruptura vive a sabedoria de um poder constituinte, como princípio de mudança e transformação do mundo material. Seu caminho operarista, político e filosófico, o qual, dentre outras coisas levou-o ao cárcere e ao exílio, une Maquiavel, Spinoza, Marx e Deleuze, para insistir en que só a potência comum é ponto de partida de alegrias imediatamente compartilhadas, a partir da autonomia das redes afetivas, sociais e produtivas. Afirma que o essencial para transformar o próprio em comum é o amor que não cessa de abrir-se a comunidades mais vastas que ‘cada um’ e seus mais próximos.
La Nación: Qual a importância do conceito de multidão, para pensar as condições políticas do presente e como o senhor avalia a pertinência da noção ampliada de “multidão dos pobres”, segundo seu mais recente livro, em colaboração com Michael Hardt, Comun. Más allá de lo privado y lo público[1]?
Toni Negri: Quando se fala de “multidão dos pobres”, a primeira referência tem a ver com o nascimento do termo “multidão”. É uma distinção que se deu no marco da Revolução Inglesa, na discussão entre os revolucionários que se manifestam contra a propriedade privada, e os partidários do exército republicano. Os primeiros dizem que representam a “multidão” dos que não têm propriedade; o outro lado diz que representa o “povo”, os que têm como objetivo ter propriedade e a têm. A revolução, claro, decidiu-se a favor da República, quer dizer, dos que têm a propriedade. O ‘outro lado’, os sem propriedade, convertem-se no proletariado que logo ultrapassa o processo de acumulação primitiva e converte-se em classe operária. Desse ponto de vista, há uma dimensão de pobreza, no fato de o vivente viver sem propriedade.
La Nación: Em que medida a transformação pela qual passou o trabalho nas últimas décadas afeta o conceito de “multidão”?
Toni Negri: O conceito de multidão tem sua genealogia nesse processo histórico. Atualmente, o processo acontece com a desagregação da classe operária, a qual está ligada à desintegração do trabalho. O trabalho, na medida em que se transforma em trabalho social, resulta num tipo de atividade que se arranca de uma determinada espacialidade específica dos modos tradicionais de produção. Quer dizer, de um lugar ou uma determinação local e, inclusive, de uma determinação temporal, entendidas como lugar da jornada laboral. A medida do trabalho, antes, estava normalmente dada em relação ao espaço de trabalho e à jornada laboral, os quais contribuíam, por um lado, para reproduzir o capital e fazê-lo frutificar; e, por outro lado, para reproduzir o próprio trabalhador. Hoje, essas medidas clássicas explodiram, tanto espacial como temporalmente. Deste ponto de vista, a multidão deveio multidão de trabalhadores precários.
Mas há outro aspecto relacionado a essa precariedade: a potência social e cooperativa do trabalho. A multidão desagrega-se em singularidades que são, antes de tudo, trabalho vivo: trabalho singular e capacidade de produção que se apresenta como cooperação virtual.
O problema político atravessa tudo isso e inclui revelar como essa multidão virtual, na qual se contém o Comum, consegue expressar-se.
La Nación: O senhor fala então de uma dimensão potente do precário?
Toni Negri: Sim, exatamente. Há uma dimensão potente no precário. Dá-se de um ponto de vista político: a multidão contém a cooperação virtual. Para a cooperação, é importante ver o problema da transição como verdadeiro dilema político. Na Argentina, é problema que foi tratado em sentido forte. Mas onde a transição, como em várias latitudes, não foi problematizada seriamente, ainda se tenta falar de transição, sem considerar a força do fascismo. O sistema capitalista tem absoluta necessidade de manter, seja como for, uma continuidade. Aconteceu no Chile.
Mas esse é problema filosófico de primeira ordem: entender o que é a transição e como afeta a potência social produtiva.
Na Espanha, essa transição está acontecendo agora pela primeira vez, desde a derrota da República: aparece hoje no movimento dos “Indignados”, como reação que redescobre a velha República e entrevê a possibilidade crítica de continuidades potentes.
Raciocinar sobre a potência não é racionar sobre alguma ideia, não é uma ontologia abstrata. Raciocinar sobre a potência é necessidade de uma ontologia concreta, que sempre se apresenta como histórica, que tem natureza plenamente produtiva, nunca vazia.
La Nación: O que significa, por onde passa, então, a potência dessa “multidão dos pobres”?
Toni Negri: A multidão proletária é livre, mas, ao mesmo tempo, reúne-se, une-se, porque a solidão é problema real. A pobreza não é déficit de ser; o verdadeiro déficit de ser é a solidão. É imperioso superar a solidão. A pobreza tem a enorme força de ser trabalho vivo. O pobre é um ser-aí, vivo e efetivo, que se apresenta como índice de associação, de cooperação, de construção. E de construção de ser, porque o ser pode ser construído; o ser não preexiste como fundo. O ser não está sempre por trás; o ser, em cada momento, encontra-se “aí”, existente no momento oportuno em que se rompe a repetição monótona do tempo. É a composição dos afetos, que Marx recupera de Spinoza.
La Nación: Depois da crise argentina de 2001, apareceu uma tensão crescente entre o Estado e os movimentos sociais, os espaços sensíveis ligados aos modos de fazer e de ser, que reclamaram uma certa autonomia. Como o senhor vê essa relação? Em que sentido se pode pensar a emancipação?
Toni Negri: Quando falo de emancipação, não falo num sentido iluminista, nem do modo que me parece que seja a mistificação atual da palavra, ou seu sentido escatológico. Benjamin foi pensador radical, mas foi usado de modo muito ambíguo. Toda essa “escatologia” hebraica e paulina que nos foi oferecida e nos domina no campo teórico, na tentativa de definir a emancipação é o prelúdio transcendente de uma libertação utópica. É preciso recuperar a emancipação em território material.
Com isso, abre-se uma série de perguntas: Como faz o homem endividado, para emancipar-se? Como faz o homem mediatizado, para emancipar-se? O que é representação política emancipada? Que significa a luta de classes? Esses são os grandes problemas da emancipação de nosso tempo. Não há emancipação como conceito derivado da hegemonia, ou simplesmente como proposta simbólica. A emancipação é prática política efetiva de resistência e criação cooperativa.
La Nación: Como, então, o senhor vê o movimento das singularidades e a continuidade do sistema de representação?
Toni Negri: O problema é que a Constituição permaneceu igual. No presente, é imprescindível perguntar: o que significa modificar a Constituição? O que quer dizer introduzir na Constituição, além do privado e do público, também o Comum? O que quer dizer introduzir a participação no lugar da representação? O que significa a gestão comum das empresas, dos bens comuns, do saber, do trabalho?
Essas são as coisas concretas que interessam. São as coisas que se apresentam à multidão dos pobres e dos indignados – de fato, apresentam-se a todos – como coisas fundamentais, embora às vezes os problemas sejam tratados como se fossem caricaturas.
Não se pode falar de singularidades, se não se fala dos novos modos de constituir o saber em relação com as tecnologias, com as finanças, com as forças de trabalho em transformação. Vale para Deleuze, para Virno, como para nós. Falamos de uma produção de mais-valia que atravessa a inovação dos processos de linguagem. É o que temos de problematizar. Em torno disso se devem construir as estruturas políticas.
La Nación: Que relação o senhor encontra entre o conceito mais contemporâneo de “biopolítica” e o conceito mais clássico de “força de trabalho”?
Toni Negri: Força de trabalho é conceito que, evidentemente, vive no interior da noção de capital. Ao mesmo tempo, constitui um problema político que atravessa a vida. Seu movimento é, por um lado, o capital variável; e, por outro, o trabalho vivo. O próprio conceito de força de trabalho deve romper-se de dentro para fora, para devir trabalho vivo independente. Esse conceito de trabalho vivo independente é fundamental, porque removeu toda a temática operária, quando aconteceu na Europa, há 30 ou 40 anos. Vale a pena, então, perguntar-se o que é a independência do trabalho vivo.
Esse é o problema que está no coração do pensamento de Gilles Deleuze e de Paolo Virno, que, adiante, nas obras deles, adquire forma filosófica. Sim, o pensamento de Giorgio Agamben aborda esse tipo de problemas, mas em termos negativos. Em vez de “trabalho vivo”, Agamben fala de “absoluta pobreza”; em vez de força de trabalho organizada, fala de “regra”. Assim recorre à abstração de nível máximo, embora o problema permaneça onde estava.
Em nosso caso, “libertar” não é mais um problema místico ou escatológico: é problema de reforma constitucional, um problema de definir os regimes de propriedade, de tratamento dos regimes monetários, bancários, financeiros. A filosofia crítica contemporânea tem de abandonar a filosofia ocidental, nos seus níveis máximos de abstração. A filosofia pode ser dada por morta, se pretende pensar os problemas das formas de resistência e de liberdade, de modo negativo e abstrato.
Para a ética e para a política, é necessário voltar às palavras que significam e que afetam as práticas em processos históricos de longa duração.
La Nación: Falávamos antes de “emancipação”. Como o senhor vê a obra de Jacques Rancière?
Toni Negri: Mantenho ótima relação com o pensamento de Rancière, tanto de um ponto de vista filosófico, como de um ponto de vista pessoal. Rancière é a pessoa mais contraditória do mundo. Por um lado, chega a uma definição da política, para pensar a distribuição do sensível, a qual, simultaneamente supõe um regime da police e um regime da pólis. É exatamente o que eu teorizo como poder constituinte e poder constituído (na linguagem da tradição, podem ser pensados como potentia e potestas). Rancière também faz uma história que é extremamente plena, cheia de conteúdos históricos determinados: a dos primeiros socialistas que construíram uma relação política intensa, como, por exemplo, em seu livro A noite dos proletários ([1988] Lisboa: Antígona, 2012). Mas, por outro lado, parece, ao meu ver, negar a história, quando teoriza em forma abstrata modelos políticos muito gerais, a partir de problemas sensíveis. Quando alguém se encontra com as duas partes, a coisa aparece como completamente contraditória, mas Racière a resolve, à sua maneira, nas abordagens estéticas.
Minha impressão é que, na estética, ele junta esses problemas numa dupla completamente separada: por uma parte, exalta o momento da política; pela outra, o momento da genealogia, ou da história desconstrutiva. Mas entendo que não consegue juntar uma à outra. Digamos que A noite dos proletários é a solução para seu problema teórico.
La Nación: Como o senhor pensa, na atual conjuntura global, os problemas que se veem na Europa e na América Latina?
Toni Negri: Entre 2004 e 2005 escrevi, com Guiseppe Cocco, um livro intitulado Glob(AL): Biopoder e luta em uma América Latina globalizada (Rio de Janeiro: Record, 2005), no qual fazíamos uma previsão, com exemplos provavelmente não muito adequados, mas bastante precisa, porque víamos que a América Latina estava saindo da dependência. Estava superando a dependência e entrando na ordem global. Você nem imagina as coisas que nos disseram! “Você nega o imperialismo, quer destruir os movimentos subversivos”. Respondo que “O problema é reconhecer que estão, sim, saindo da dependência. Organizem-se para mobilizar os movimentos sociais para dentro do Estado e contra o Estado.”
La Nación: Mobilizá-los para dentro e contra o Estado?
Toni Negri: Sim, para dentro e contra. O problema da liberdade política dos movimentos sociais que aspiram a uma democracia radical é sempre esse. Mas é preciso estar muito atento, porque essa é também a regra dos oportunistas: “metem-se dentro, para depois fazer outra coisa”. Para dentro e contra não são dois movimentos: é um só movimento simultâneo.
Tenho tido contatos com quase todos os países da América Latina, nos últimos anos, e a cada dia é mais evidente uma transformação radical. No Chile, por exemplo, era inimaginável uma revolta de estudantes como a que se viu ano passado e que permanece muito presente nas linhas que abriu. É a lucidez de rapazes e moças de 18 anos? São de uma maturidade política surpreendente. Houve uma transformação antropológica na América Latina nos últimos 10, 15 anos, que afetou o exercício político. A vitória de Lula, ou o ano 2001 argentino são dados fundamentais para avaliar uma irrupção transformadora. E, por outro lado, havia toda uma linha da esquerda que olhava na direção de Chávez.
Sempre fui muito realista sobre os processos que considero importantes. O Brasil, por exemplo, começa a reconhecer-se, não na dependência, mas na interdependência global, e, nesse contexto, está resolvendo seu imenso problema racial que, contudo, ainda existe. A favela começa a ser um lugar que não está fora da cidade, fora da pólis. Começa a haver um Welfare: uma situação de assistência generalizada, uma “escola” que começa a se abrir. Esses são os grandes problemas que a América Latina está enfrentando.
Há companheiros que dizem que o grande momento já foi superado e que, agora, estamos entrando num momento de estabilização, que a crise mundial opera de tal modo, que consegue meter paus na engrenagem, bloquear a imaginação que se tem de aplicar à política. Não sinto que se possa esgrimir juízo definitivo.
Acredito que a América Latina deu um grande passo e foi, inclusive, mestra de trajetórias revolucionárias. Penso nisso, nem tanto pelos Zapatistas, mas, mais, pelos movimentos sociais argentinos e brasileiros. Essa é a conjuntura em que se dá a novidade da relação movimentos sociais-governos, que corresponde a uma situação geral de uma crise do Direito. Hoje já não é possível buscar um Direito que funcione de modo dedutivo: ius publicum europaeum. É preciso inventar jurisprudência a partir do poder constituinte da multidão.
La Nación: O Direito parece funcionar só sobre questões particulares?
Toni Negri: É. Só funciona sobre questões que têm a ver com elementos de contratos, de consenso, de conflito. Se se vê o fato de que alguns movimentos sociais entram no campo da ação governamental, isso não significa que os movimentos venceram; significa que os governos sentiram a necessidade de abrir-se. Quanto a isso, também, é preciso atenção máxima, porque, ao exaltar um aspecto, pode acontecer de descuidarmos do outro lado do problema. Seja como for, tem havido sucessos muito importantes na América Latina que seria necessário ampliar.
A Europa, por sua vez, está em situação completamente diferente. A Europa está completamente bloqueada, fixada numa série de rigidezes físicas e intelectuais que tornam extremamente difícil o movimento de unir-se em torno da União Europeia; e, nesse contexto, retoma-se o desenvolvimento da luta de classes. O problema aí pode ser resumido em algumas perguntas: quais são as condições da luta de classes? Quais são as condições pelas quais nos libertamos desses patrões?
Insuportável é ver que tomam o dinheiro de cada trabalhador e o metem no bolso, e você, o trabalhador, vira mendigo. Todos temos de fazer essa revolução. Algum dia teremos de fazê-la. Toda a inteligência tem de ser mobilizada para resolver esse problema; o resto são estupidezes.
La Nación: Apesar da miséria europeia e, sobretudo, da miséria italiana, vê-se um momento muito prolífico no pensamento italiano. Talvez se possa dizer que o pensamento italiano é mais potente hoje, na América Latina, que na própria Europa…
Toni Negri: Hardt e Virno editaram, em meados dos anos 1990, um livro formidável, com contribuições fundamentais: Radical Thought in Italy: A Potential Politics (1996[2]). Incluía um capítulo de Virno, com o título de “Do You Remember Counterrevolution?” [Lembram-se da contrarrevolução?]. Nesse capítulo, ele joga com o fato de que, depois de 1848, fazia-se revolução na França e pensamento na Alemanha; e diz que, então, se fazia pensamento na França e revolução na Itália. É ideia bem bonita, não? Quando se puder dizer que se faz pensamento na Itália e revolução na América Latina, talvez tenhamos completado o movimento.
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[1] Ver resenha (“Commonwealth: amor e pós-capitalismo”, Bruno Cava, blog Outras palavras), em http://www.outraspalavras.net/2010/06/22/commonwealth-amor-e-pos-capitalismo/ [NTs]
[2] VIRNO, Paolo; HARDT, Michael (eds.), Radical Thought in Italy: A Potential Politics, Minneapolis, University of Minnesota Press, 1996 [NTs].
PS: “Título original: É necessário voltar às palavras que significam”2/11/2012, entrevista a Ariel Pennisi e Adrián Cangi, La Nación, Buenos Aires, Ar.
http://www.lanacion.com.ar/1522453-toni-negri-es-necesario-volver-a-las-palabras-que-significan-algo

domingo, 2 de setembro de 2012

Globalização, dois aspectos chave


Segundo Pierre Veltz (2000), dois aspectos-chave para o desenvolvimento das economias urbanas são: primeiro, a nova "centralidade" das grandes cidades como sistemas de controle da economia globalizada e, segundo, uma tendência paralela de descentralização dos serviços de rotina para fora destas cidades mundiais. Em consequência destes processos de polarização e descentralização, embaralham-se as diferenças entre metrópoles e ‘províncias’ tanto em escala nacional quanto em escala internacional.
A globalização para Pierre Veltz (2000) é uma estratégia para dominar a diversidade resultante das organizações multilocalizadas e de seus procedimentos de diversificação e valorização de produtos. Assim, a globalização se beneficia de uma visão ampla da demanda e da concorrência, baseada numa abordagem global da diversidade de situações regionais ou nacionais enfrentadas. Neste sentido, em termos organizacionais, as firmas podem encarnar múltiplos formatos e prender-se a formas geográficas, também muito variadas.
Contudo, segundo Pierre Veltz (2000), há uma defasagem entre a fase da multilocalização econômica e a fase da globalização, que concerne ao tipo de produto colocado no mercado: um produto manufaturado com alto valor agregado (de alta tecnologia) ou um produto de baixo valor agregado, como as matérias primas destinadas à produção de bens, as chamadas commodities, tais como minério de ferro, vários tipos de grãos, madeira, processados ou em natura. As commodities são os produtos predominantes na pauta de exportação dos portos do Espírito Santo (ES). No Brasil, uma importante porcentagem da indústria optou pela comercialização de commodities, produzidas e comercializadas em milhares de toneladas.
Para Pierre Veltz (2000), a passagem da multilocalização à globalização concerne à produção que agrega alta tecnologia e capacitação, mas também ao momento estratégico de dispersão das empresas no exterior que na globalização se aprimora na diversificação de produtos e da organização, especificamente no cruzamento de uma coordenação forte e configuração geográfica (dispersão, verticalização ou reagrupamento).
A globalização se estabelece por um triplo efeito da técnica, das finanças e da informação. As técnicas obtém redução de custos de transação por alcançarem uma ampla escala internacional (economia de escala). As finanças buscam maior rentabilidade na exploração de novos territórios em tempo real, “sob pressão de redes de venda” (economia de escopo) (BETBÈZE, 2009, p 105). As tecnologias da informação e da comunicação proporcionam e multiplicam a potência desses processos.
As estruturas de produção multiplicam suas dimensões, o que é seguido por um acelerado processo de deslocalização de indústrias e de serviços. “As revoluções tecnológicas acentuam os contrastes e aumentam as precarizações” (BETBÈZE, idem). Nesse processo surgem países emergentes como China e India, Brasil (citados por Betbèze pgs 105 e 113). Ele diz a China nos inquieta por estar nos alcançando (Europa) e também por estar saindo de uma pobreza de massa (BETBÈZE, p. 105). [Não encontrei a data da publicação original, importante nesse caso].

 

Referências

VELTZ, Pierre. Mondialisation, Villes et Territoires, L’Économie D’Archipel. Paris: PUF, 2000
BETBÈZE, Jean-paul. Economia: 100 palavras-chave. Porto Alegre: L&PM, 2009.

 

sábado, 1 de setembro de 2012

Globalização, um conceito comunicacional


Segundo Frederic Jameson (2001), a globalização é um conceito comunicacional, que alternadamente mascara e transmite significados culturais e econômicos. Mas, a abordagem comunicacional é “basicamente incompleta”, Jameson adverte que é sempre possível encontrar outras dimensões embutidas no conceito comunicacional de globalização: o conceito de uma nova cultura mundial, através do postulado da ampliação das redes, e o econômico, que advém da viabilização da produção flexível pelas novas tecnologias da informação e da comunicação.
Os problemas de 'padronização' de mercados e a exploração das diferenças dos locais permitem concluir com Jameson que o conceito de globalização é ambíguo e seus conteúdos 'alternantes' possuem múltiplas possibilidades de exploração. É o que se pretende empreender no desenvolvimento deste 'curso', que não consegue se desvencilhar do enredamento e dos torvelinhos das “novas formas de rotação” da informação e da reflexão.
A compreensão das tendências da globalização solicita o enfrentamento dos “números e outros dados duros, macrossociais” que descorporificam os lugares no mapa, ao mesmo tempo, leva a investigação das descrições sócio-culturais, que captam processos específicos do lugar e as possibilidades de ação em tais processos (CANCLINI, 2003).
O novo espaço público global imaterial e virtual conduz a reavaliação da cidade e da arquitetura, como produto da manufatura, com seu decorrente impacto sólido, visual, tátil de realidade, do qual provém o sentido da objetividade do mundo, como parte da “condição humana” de acordo Hannah Arendt (1995). As tecnologias da informação e da comunicação, mas também as tecnologias articuladas a elas, como a logística, permitem a abertura a processos complexos de intervenção territorial. Estes não se restringem mais apenas ao espaço físico tangível, fixo, e sintetizam diversas situações de reconhecimento e de abordagem.
As condições globais estão progressivamente híbridas e multifacetadas, superpõem flutuações e mutações, acumulando camadas[1] de 'realidade' (objetos físicos) e camadas de informações (GAUSA et al, 2000). Estas possibilidades se chocam com a condição de objeto da manufatura, compreendido como localização e posição sensível, e com a noção de espaço como aquilo “que impede que tudo esteja no mesmo lugar” (VIRILIO, 1993). Destaca-se que as tecnologias da informação e da comunicação, as TICs, operam transformações no território sem necessariamente manifestar índices (tangíveis) ou se tornarem ícones (físicos)[2].


[1] Camada é tomada como um termo correlato a estrato, estratificação: “Cada estrato ou articulação é composto de meios codificados, substâncias formadas. Formas e substâncias, códigos e meios não são realmente distintos. São componentes abstratos de qualquer articulação” (DELEUZE & GUATTARI, 2002).
[2] Refere-se à relação entre signos e territorialização de Deleuze e Guattari (1995): índices (signos territoriais), símbolos (signos desterritorializados) e ícones (signos reterritorializados).

Referências
Garcia Canclini, Néstor. A Globalização Imaginada/Nestor Garcia Canclini - São Paulo: Iluminuras, 2007
DELEUZE, Gilles & GUATARRI, Felix. Mil Platôs. Capitalismo e Esquizofrenia. Vol 3. Rio de janeiro: Ed. 34, 1995

DELEUZE, Gilles & GUATARRI, Felix. Mil Platôs. Capitalismo e Esquizofrenia. Vol 5. Rio de janeiro: Ed. 34, 2002
GAUSA, Manuel, GUALLART, Vicente & MÜLLER, Willy et al. (orgs.). Diccionario Metápolis de arquitectura avanzada. Ciudad y tecnologia en la sociedad de la información. Barcelona: Actar, 2000.
JAMESON, Fredric. Notas sobre a globalização como questão filosófica. In PRADO, José Luiz Aidar & SOVIK, Liv. (orgs). Lugar Global e Lugar nenhum: Ensaios sobre democracia e globalização. São Paulo: Hacker Ed., 2001.
VIRILIO, Paul. Espaço Crítico. São Paulo: Ed. 34, 1991 

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Hiperterritório 1


A inclinação pela noção de hiperterritório advém da constatação que “não há mais um fora” (HARDT, 2000), não há mais terra incógnita e limites fixos, todo o planeta e sistema solar estão sob a jurisdição do mercado, da regulamentação extraterritorial, dos circuitos de segurança telemáticos. Quando há zonas autônomas abertas, elas se deslocam o tempo todo, para ficarem invisíveis à cartografia do controle (BEY, 2001). O isolamento ou confinamento não é uma marca importante da sociedade de controle ou da sociedade da informação, a despeito da distinção de referente e de significado entre estes dois conceitos. 
Não obstante, a lógica do arquipélago faça muito sentido em relação à inclusão diferenciada da periferia e dos interstícios nos processos de sucesso da globalização, por outro lado, todas essas relações territoriais são marcadas por dinâmicas dramáticas, como a crise de 2008 que se estende com altos e baixos até o momento, 2012.
 
Referências:
BEY, Hakim. TAZ, Zona Autônoma Temporária. Tradução: Patrícia Decia et Renato Resende. São Paulo: Conrad Livros, 2001.
HARDT, Michael. A Sociedade Mundial de Controle. In. ALLIEZ, Éric. (org). Gilles Deleuze: Uma vida Filosófica. São Paulo: Ed. 34, 2000.