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sábado, 27 de outubro de 2012

Território, territorialidades e redes teias


Ainda seguindo as três metáforas das redes: fluidos, teias e rizomas, sugeridas por Maria Ceci Misoczky, a ideia neste post é abordar as redes teias que caracterizam algumas das redes do modo de desenvolvimento contemporâneo, sobretudo as relativas aos centros de poder.
Dentre diversas questões que caracterizam o território, se diz que ele se organiza de acordo com certos critérios de partilha e de contiguidade, distância (e/ou de condutas sociais de estar junto ou separado; próximo ou distante; só ou em grupo).

De acordo com Milton Santos, em Território, Globalização e Fragmentação (1994), o  funcionamento do território ocorre de modo horizontal por (relação de vizinhança ou continuidade territorial e vertical ‑  mediante pontos distantes uns dos outros, ligados por múltiplas formas e processos sociais.
“ O território, hoje, pode ser formado de lugares contíguos e de lugares em rede: as redes constituem uma realidade nova que, de alguma maneira, justifica a expressão verticalidade. Mas além das redes, antes das redes, apesar das redes, depois das redes, com as redes, há o espaço de todos, todo o espaço, porque as redes constituem apenas uma parte do espaço e o espaço de alguns. São, todavia, os mesmos lugares que formam redes e que formam o espaço de todos” Santos apud ProexUFPE.
Seguindo este raciocínio de redes “hierarquizadas” face territorialidades

Retoma-se o espaço de representação em sua articulação entre o espaço da prática social e a sua materialidade imediata, com implicação temporal-espacial das representações sociais nos remete às relações de poder. O poder é correlato à noção de apropriação e à definição de papéis sociais hierarquizados. Assim uma das formas concretas de apropriação temporal-espacial mediada pelo poder é o território. Este fato assimila territorialidade e poder. No campo das representações sociais o desígnio adjacente de controle e legitimação na definição de territórios, é a noção de territorialidade.

O território é sinônimo de apropriação, de subjetivação fechada sobre si mesma. O seu conjunto dos projetos e das representações desemboca, pragmaticamente, em toda uma série de investimentos, nos tempos e nos espaços sociais, culturais, técnicos, cognitivos. Enfim, a territorialidade aparece nas representações sociais que visam definir as fronteiras de controle e apropriação de determinada realidade social.

Raffestin, no quadro da Geografia Política e se referenciando em Lefebvre, afirma que o território é um espaço modificado pelo trabalho e revela relações de poder . (Saquet. 75). Ele é objeto de relações sociais, de poder e dominação, o que implica a cristalização de uma territorialidade, ou de territorialidades no espaço, a partir de várias atividades cotidianas. Isso se assenta, segundo Raffestin, na construção de malhas, nós e redes, delimitando campos de ação e de poder nas práticas espaciais e constituem o território como materialidade . (Saquet. p76)

Raffestin denomina de sistema territorial o resultado das relações de pode entre Estado, empresas e outras organizações e indivíduos. Atores fazem uma repartição espacial, implantam os nós e constroem redes. Os sistemas territoriais asseguram a coesão espacial e o controle de pessoas e coisas. “As tessiduras, os nós e as redes são subconjuntos que sustentam as práticas espaciais, tanto econômica como política e culturalmente”, concretizando a produção territorial. Essas práticas se inscrevem no campo de poder de maneira relacional Raffestin se baseia em Foucault (Saquet. p, 76).

Raffestin diferencia atores sintagmáticos e atores paradigmáticos na produção do espaço. O ator sintagmático combina todas as espécies de elementos para produzir/ o Estado é o ator sintagmático por excelência. O ator paradigmático deriva de uma divisão classificatória/ critérios individuais e coletivos (apud Galvão; França e Braga.)

De acordo com Raffestin (apud Galvão; França e Braga) Estado e organizações para realizarem objetivos recorrem a estratégias.

Para designar a definição de estratégia recorre-se a Reffestin e a de Certeau. É o “uso do engajamento para fins de guerra” Raffestin (apud Galvão; França e Braga.). Mas, segundo Certeau aquelas práticas, que distinguem um lugar “próprio”, de onde se pode manipular as relações de força, são designadas estratégias. Estas são “um tipo específico de saber”, possuindo no poder a sua face “preliminar”. Certeau contrapõe as estratégias às táticas, que são recursos empregados quando não se domina um lugar “próprio”, quando se tem que jogar num terreno cuja a regra é exterior, e se ocupa o lugar do “outro”. Recorrem-se às táticas quando não se tem condições de possibilidade de um projeto global, e consequentemente, não se obtém individualidade institucionalizada no campo. Deve se operar por “astúcia” em relação ao tempo – aproveitar as “ocasiões”.

No dicionário Metapólis se abre outras vias de abordagem. A estratégia é uma lógica e a tática é um critério, o estratagema é um ardil. A estratégia se refere, pois, a uma lógica global capaz de dirigir as operações; a tática é um conjunto de regras e relações – o dispositivo operativo – necessário para facilitar a “evolução local”. O estratagema é contingente. (verbete Metapólis. p. 211)

Raffestin (apud Galvão; França e Braga, p. 38) diz ainda que as estratégias (militares e jogos) têm em comum: a energia (potencial que possibilita o movimento, a transformação da matéria) e informação (forma ou ordem detectada em toda matéria e energia).

O problema da circulação de informação – a amplitude da dominação do território depende da quantidade de energia disponível. “A circulação da informação estabelece uma comunicação que ocorre num campo de poder e todo poder é desempenhado no campo da comunicação” (Raffestin apud Galvão; França e Braga, p. 38).

A noção de poder multidimensional relaciona Raffestin e Foucault (conceito de biopoder).
Poder gera transmutação, Galvão; França e Braga, p. 40.

A separação entre energia da informação no nível do trabalho realiza fissura social (Raffestin apud Galvão; França e Braga, p. 40)  – tratar disso noutra ocasião.

Segundo Raffestin (apud Galvão; França e Braga, p. 40-41), o  território é um trunfo particular, recurso, entrave, continente e conteúdo, tudo ao mesmo tempo. O território é um espaço político por excelência, o campo de ação do poder. Ver p. 40-41 – CAMPO. Raffestin - espaço é matéria prima anterior ao território. A partir do espaço das ações de apropriações, conduzidas por atores ocorre a territorialização do espaço e o espaço é tornado produto. O espaço é modificado pelo trabalho então revelam-se relações de poder.

Produzir uma representação de espaço já é uma apropriação, uma empresa, um controle, portanto (Raffestin apud Galvão; França e Braga, p. 42).
 
A divisão da superfície: malhas, nós e redes, é um sistema de tessiduras  - nós e redes – organizadas hierarquicamente permitem assegurar o controle sobre aquilo que pode ser distribuído.

Para fazer uma representação moderna do espaço Raffestin (apud Galvão; França e Braga, p. 42 ver 43.-44) destaca a superfície ou plano, linha ou reta e o ponto como elementos essenciais – puro jogo estrutural que transcende os objetos representados mas preserva seus contatos, suas relações.

A territorialidade não é só modelo do espaço, mas também as características dos indivíduos e dos grupos que constituem um território (Galvão; França e Braga, p. 43).

Os cortes e recortes das tessiduras e as ligações entre os nós são explorados através dos conceitos de redes. Ver Galvão; França e Braga p. 44.

Os nós podem ser os centros de poder e de referências das aglomerações de diversas escalas, de indivíduos e de grupos. Os nós são interdependentes, precisam relacionar-se, comunicar-se.

A rede é compreendida na complementaridade entre circulação e comunicação: como fluxos materiais e imateriais (Galvão; França e Braga p. 44).

“A rede é proteiforme, móvel, inacabada, desta falta de acabamento tira sua força no espaço e no tempo (...). A rede faz e desfaz as prisões do espaço tornado território: tanto libera quanto aprisiona. É o porquê de ela ser o instrumento por excelência do poder” (Raffestin apud Galvão; França e Braga p. 44).

A rede descrita por Raffestin é a rede teia.

 

REFERÊNCIAS

GALVÃO; FRANÇA E BRAGA. O território e a territorialidade: Contribuições de Claude Raffestin. In SAQUET & SOUZA, Edson. Leituras do Concieto de Teritório. Expressão Popular, 2009
SAQUET. Abordagens e concepções do território. Expressão Popular, 2010
SANTOS, Milton.  Territorio, Globalização e Fragmentação. São Paulo: Hucitec, 1994.  
PROEXUFPE.  O conceito de TERRITÓRIO segundo Milton Santos

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Multitudes Web - Biopolítica e Biopotência no coração do Império

Multitudes Web - Biopolítica e Biopotência no coração do Império

Excerto do texto de  Peter Pàl Pelbart

" O Império contemporâneo, diferentemente do Império chinês do conto de Kafka, já não funciona na base de muralhas e trincheiras, e os últimos acontecimentos demonstraram cabalmente a falência da lógica da fortaleza. O Império se nomadizou completamente. Ou melhor, ele é a resposta política e jurídica à nomadização generalizada. Ele mesmo depende da circulação de fluxos de toda ordem a alta velocidade, fluxos de capital, de informação, de imagem, de bens, mesmo e sobretudo de pessoas [4]. Claro que nem tudo circula da mesma maneira por toda parte, e nem todos extraem dessa circulação os mesmos benefícios. O novo capitalismo em rede, que enaltece as conexões, a movência, a fluidez, produz novas formas de exploração e de exclusão, novas elites e novas misérias, e sobretudo uma nova angústia - a do desligamento. O que Castel chamou de desfiliação, e Rifkin de desconexão. Ser ameaçado de desconexão, de desengate - sabemos que a maioria se encontra nessa condição, de desplugamento efetivo da rede. O problema se agrava quando o direito de acesso às redes, como o diz Rifkin (e agora trata-se não só da rede no sentido estrito, tecnológico e informático, mas das redes de vida num sentido amplo) migra do âmbito social para o âmbito comercial. Em outras palavras : se antes a pertinência às redes de sentido e de existência, aos modos de vida e aos territórios subjetivos dependia de critérios intrínsecos tais como tradições, direitos de passagem, relações de comunidade e trabalho, religião, sexo, cada vez mais esse acesso é mediado por pedágios comerciais, impagáveis para uma grande maioria. O que se vê então é uma expropriação das redes de vida da maioria da população, através de mecanismos cuja inventividade e perversão parecem ilimitadas."
(...)
"Duas palavrinhas ainda. Uma a respeito do termo biopolítica e outra a respeito do termo multidão. Biopolítico foi o termo forjado por Foucault para designar uma das modalidades de exercício do poder sobre a vida, sobre a população enquanto massa global afetada por processos de conjunto. Um grupo de teóricos, majoritariamente italianos, propôs uma pequena inversão, não só semântica, mas também conceitual e política. Com ela, a biopolítica deixa de ser prioritariamente a perspectiva do poder tendo por objeto passivo o corpo da população e suas condições de reprodução, sua vida. A própria noção de vida deixa de ser definida apenas a partir dos processos biológicos que afetam a população. Vida inclui a sinergia coletiva, a cooperação social e subjetiva no contexto de produção material e imaterial contemporânea, o intelecto geral. Vida significa inteligência, afeto, cooperação, desejo. Como diz Lazzarato, a vida deixa de ser reduzida, assim, a sua definição biológica para tornar-se cada vez mais uma virtualidade molecular da multidão, energia a-orgânica, corpo-sem-órgãos. O bios é redefinido intensivamente, no interior de um caldo semiótico e maquínico, molecular e coletivo, afetivo e econômico, aquém da divisão biológico/mecânico, individual/coletivo, humano/inumano. Assim, a vida ao mesmo tempo se pulveriza e se hibridiza, se dissemina e se alastra, se moleculariza e se totaliza, se descola de sua acepção biológica para ganhar uma amplitude inesperada e ser, portanto, redefinida como poder de afetar e ser afetado, na mais pura herança espinosana. Daí a inversão, em parte inspirada em Deleuze, do sentido do termo forjado por Foucault : biopolítica não mais como o poder sobre a vida, mas como a potência da vida. A biopolítica como poder sobre a vida toma a vida como um fato, natural, biológico, como zoè, ou como diz Agamben, como vida nua, como sobrevida. É o que vemos operando na manipulação genética, mas no limite também no modo como são tratados os prisioneiros da Al Qaeda em Guantánamo, ou os adolescentes infratores nas instituições de "reeducação" em São Paulo - e os atos de auto-imolação espetacularizada que esses jovens protagonizam em suas rebeliões, diante das tropas de choque e das câmaras de televisão, não seriam a tentativa de reversão a partir desse 'mínimo' que lhes resta, o corpo nú ? [8]. Em contrapartida, a biopolítica concebida como potência de variação de formas de vida equivale à biopotência da multidão, tal como referida acima."



[4] Cf. Toni Negri e Michael Hardt, Império.