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sábado, 27 de outubro de 2012

Territorialidades corporativas 2

Excerto da tese Doutorado Dispositivos territoriais das redes mundiais, PUCSP, 2004. Clara Miranda
O comércio intrafirma acontece em firmas-rede, que são as mais características da produção flexível. Alguns dos segmentos interconectados são tanto autônomos quanto interdependentes da rede, podendo mesmo fazer parte de outras redes. A atuação dessas redes, segundo Manuel Castells (2000), depende de sua “capacidade de conexão”, quer dizer, da “sua capacidade estrutural para facilitar a comunicação livre de ruídos entre seus componentes; e sua consistência, ou seja, o grau até o qual se partilham interesses entre os fins da rede e os de seus componentes”.

A troca de componentes e de suprimentos para cadeias de atividades internacionalizadas intrafirmas têm alçado um alto volume no comércio internacional brasileiro. Das comutações globais, decorre a integração dos mercados, consolidada pela articulação em rede das firmas multinacionais entre sucursais, fornecedores e subcontratantes que representa cerca de 30% do comércio mundial e 50% das importações do Brasil (ANDREFF, op. cit).

Um dos determinantes principais do comércio exterior é a estratégia técnico-financeira da empresa transnacional para a integração industrial. Essa estratégia segue etapas, que envolvem a produção e a comercialização, visando a otimização da estratégia concorrencial global, com o objetivo de consolidar o grupo no mercado global.

A integração industrial transnacional enseja um importante comércio entre os segmentos da empresa-rede. Os preços que governam as transações intra-firma, denominados preços de transferência, possuem determinantes singulares, consistindo numa das vantagens da internacionalização para essas empresas. Destacam-se no comércio intra-firmas em território brasileiro, os grupos PHILIPS, a FIAT, BOSCH, VOLKSWAGEM e a GENERAL MOTORS, segundo a Secretaria de Comércio Exterior (SECEX) do Governo brasileiro (dados até 2004).

Uma das estratégias das firmas transnacionais é baseada na integração em níveis, na qual cada unidade da firma faz parte de uma seqüência da cadeia produtiva, desenvolvendo produtos de uma das etapas ou enviando suprimentos para uma unidade montadora. Esta estratégia atua sobre as importações brasileiras de material eletro-eletrônico, destacando-se a PHILIPS. Sua principal filial brasileira está sediada em Manaus, e é uma grande importadora de aparelhos e material elétricos. As suas compras externas foram realizadas basicamente das próprias filiais da PHILIPS, estabelecidas na China, Japão, Hong Kong e Singapura. Essas subunidades desenvolvem produtos, que são enviados para Manaus, que monta o produto final para venda no Brasil e para exportação. Ressalta-se que essas importações aproveitam o benefício fiscal da Zona Franca de Manaus, que é um fator determinante da concentração deste tipo de importação.

O grupo italiano FIAT é a oitava montadora mundial de automóveis, possuindo 16 fábricas no Brasil, a FIAT Automóveis se destaca entre elas, um dos maiores grupos industriais do país. Um dos fatores que marcam o intercâmbio entre Brasil e Itália é a estratégia técnico-financeira do comércio intrafirma da FIAT. Embora, o intercâmbio venha se reduzindo, componentes, partes e peças para a montagem de carros no Brasil continuaram a ser trazidos da Itália, beneficiando-se da baixa taxa de crescimento italiana e da estabilidade relativa do seu mercado no Brasil. A operação em rede da FIAT envolve acordos intersetoriais com a Siderúrgica USIMINAS, em sua estratégia de desverticalização, esta fornece peças especiais e presta serviços em mecânica e na manutenção de equipamentos.
A multilocalização, descentralização das operações na cadeia mundial de suprimentos e de distribuição da FIAT Automóveis

Global sourcing in the automotive supply chain: The case of Fiat Auto “project 178” world car
Arnaldo Camuffo and Giuseppe Volpato - Ca’ Foscari University of Venice, Italy
 
idem. 
Polos da FIAT Turkey (esq,/ azul), Poland (esq,/ grafite), Argentina (cinza); Italy (dir/ azul) and Brazil (dir/ dir- cinza). Camuffo & Volpato, idem

Territorialidade do agronegócio

Excerto da Tese de Doutorado, Dispositivos territoriais das redes mundiais, 2004
Diagrama soja fluxos/ pólos e produtores maiores-hubs, Miranda, 2004


Detalhe das manchas de produção de soja Centro-Oeste/ BAHIA/Paraná/ Minas. Pesquisa de dados no Geipot. Inclui produção de minério/ aço e celulose. Pesquisa Clara Luiza Miranda desenho Patrícia Hulle. Valores em milhões de toneladas

MAPA DAS COMMODITIES
“Nada é mais desterritorializado que a matéria movimento, a matéria-fluxo é vetorial” Deleuze e Guattari
A nova configuração da circulação e a mobilidade geográfica intensiva que ocorrem no território brasileiro, nos anos 2000, advêm principalmente das novas fronteiras agrícolas: cerrados do Centro-Oeste, Triângulo Mineiro, Rondônia, Oeste da Bahia, sul do Maranhão e do Piauí. Estas regiões estão se tornando altamente modernizadas e especializadas, produzindo commodities, sobretudo soja e milho.
A longa distância da nova fronteira agrícola dos portos influi na configuração das redes de circulação, na medida em que multiplica os percursos possíveis no território e que enseja a possibilidade de ampliar o número de saídas, entradas e passagens para o interior do subcontinente.
Estas redes de transporte são açambarcadas imediatamente pelas corporações. Segundo dados da empresa Archer Daniels Midland, a ADM, as chamadas fronteiras logísticas em geral, são consideradas como as últimas etapas que podem ser exploradas para aumentar a praticabilidade das empresas, a fim de manter "vantagens diferenciais competitivas". Abrir novos fronts requer “as atividades logísticas, que afetam os índices de preços, custos financeiros, produtividade, custos de energia e satisfação dos clientes”.
(...)
A estratégia de multilocalização das firmas mundialmente, o intra-firm sourcing, gera lógicas organizacionais, que estruturam cadeias produtivas em forma de redes de empresas, de escala e vínculos diversos: filiais, terceirizações, subcontratações, parcerias. A organização do intra-firm sourcing superpõe-se em camadas, que vão configurando a flexibilização da produção no território, assim como a flexibilização das formas de trabalho, fragmentando-se em agentes menores, que podem gera formas de cooperação territorial tipo clusters, na medida em que se aproxima da base da cadeia expandida (DUPAS, 2001).
"As modificações ocorridas no seio das cadeias produtivas globais, alteram, pois, de modo decisivo, a forma como os países e os agente econômicos relacionam-se entre si, se apropriam da riqueza, alteram o mapa da produção mundial, a demanda por trabalho e a força relativa dos diversos grupos de trabalhadores" (DUPAS, 2001).
O padrão de distribuição territorial é variado, a unidade operativa é a rede e não cada uma das firmas individuais. O que torna a informação, que circula em redes e sub-redes crucial na realização das operações das cadeias produtivas (CASTELLS, 2001). (...)

Referências:
CASTELLS, Manuel. A Sociedade em redes. Tradução: Klaus Brandini Gerhrdt. São Paulo: Paz e Terra, 2000.
DUPAS, Gilberto. O Brasil, suas empresas e os desafios da competição global. In. BARROS, Betania Tanure (org.). Fusões, Aquisições & Parcerias. São Paulo, 2001.