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sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Multitudes Web - Biopolítica e Biopotência no coração do Império

Multitudes Web - Biopolítica e Biopotência no coração do Império

Excerto do texto de  Peter Pàl Pelbart

" O Império contemporâneo, diferentemente do Império chinês do conto de Kafka, já não funciona na base de muralhas e trincheiras, e os últimos acontecimentos demonstraram cabalmente a falência da lógica da fortaleza. O Império se nomadizou completamente. Ou melhor, ele é a resposta política e jurídica à nomadização generalizada. Ele mesmo depende da circulação de fluxos de toda ordem a alta velocidade, fluxos de capital, de informação, de imagem, de bens, mesmo e sobretudo de pessoas [4]. Claro que nem tudo circula da mesma maneira por toda parte, e nem todos extraem dessa circulação os mesmos benefícios. O novo capitalismo em rede, que enaltece as conexões, a movência, a fluidez, produz novas formas de exploração e de exclusão, novas elites e novas misérias, e sobretudo uma nova angústia - a do desligamento. O que Castel chamou de desfiliação, e Rifkin de desconexão. Ser ameaçado de desconexão, de desengate - sabemos que a maioria se encontra nessa condição, de desplugamento efetivo da rede. O problema se agrava quando o direito de acesso às redes, como o diz Rifkin (e agora trata-se não só da rede no sentido estrito, tecnológico e informático, mas das redes de vida num sentido amplo) migra do âmbito social para o âmbito comercial. Em outras palavras : se antes a pertinência às redes de sentido e de existência, aos modos de vida e aos territórios subjetivos dependia de critérios intrínsecos tais como tradições, direitos de passagem, relações de comunidade e trabalho, religião, sexo, cada vez mais esse acesso é mediado por pedágios comerciais, impagáveis para uma grande maioria. O que se vê então é uma expropriação das redes de vida da maioria da população, através de mecanismos cuja inventividade e perversão parecem ilimitadas."
(...)
"Duas palavrinhas ainda. Uma a respeito do termo biopolítica e outra a respeito do termo multidão. Biopolítico foi o termo forjado por Foucault para designar uma das modalidades de exercício do poder sobre a vida, sobre a população enquanto massa global afetada por processos de conjunto. Um grupo de teóricos, majoritariamente italianos, propôs uma pequena inversão, não só semântica, mas também conceitual e política. Com ela, a biopolítica deixa de ser prioritariamente a perspectiva do poder tendo por objeto passivo o corpo da população e suas condições de reprodução, sua vida. A própria noção de vida deixa de ser definida apenas a partir dos processos biológicos que afetam a população. Vida inclui a sinergia coletiva, a cooperação social e subjetiva no contexto de produção material e imaterial contemporânea, o intelecto geral. Vida significa inteligência, afeto, cooperação, desejo. Como diz Lazzarato, a vida deixa de ser reduzida, assim, a sua definição biológica para tornar-se cada vez mais uma virtualidade molecular da multidão, energia a-orgânica, corpo-sem-órgãos. O bios é redefinido intensivamente, no interior de um caldo semiótico e maquínico, molecular e coletivo, afetivo e econômico, aquém da divisão biológico/mecânico, individual/coletivo, humano/inumano. Assim, a vida ao mesmo tempo se pulveriza e se hibridiza, se dissemina e se alastra, se moleculariza e se totaliza, se descola de sua acepção biológica para ganhar uma amplitude inesperada e ser, portanto, redefinida como poder de afetar e ser afetado, na mais pura herança espinosana. Daí a inversão, em parte inspirada em Deleuze, do sentido do termo forjado por Foucault : biopolítica não mais como o poder sobre a vida, mas como a potência da vida. A biopolítica como poder sobre a vida toma a vida como um fato, natural, biológico, como zoè, ou como diz Agamben, como vida nua, como sobrevida. É o que vemos operando na manipulação genética, mas no limite também no modo como são tratados os prisioneiros da Al Qaeda em Guantánamo, ou os adolescentes infratores nas instituições de "reeducação" em São Paulo - e os atos de auto-imolação espetacularizada que esses jovens protagonizam em suas rebeliões, diante das tropas de choque e das câmaras de televisão, não seriam a tentativa de reversão a partir desse 'mínimo' que lhes resta, o corpo nú ? [8]. Em contrapartida, a biopolítica concebida como potência de variação de formas de vida equivale à biopotência da multidão, tal como referida acima."



[4] Cf. Toni Negri e Michael Hardt, Império.

domingo, 2 de setembro de 2012

Fábrica do homem endividado


Alguns anos de "globalização", o processo econômico que predomina mostra o fundo do poço que é a "fábrica do homem endividado", livro de Maurizio Lazzarato, a seguir um excerto do livro traduzido.
O crédito é "um dos melhores instrumentos de exploração que o homem soube erigir pois alguns podem, com base em papéis, se apropriar do trabalho e da riqueza dos outros" (Ardent,apud Lazzarato). O que a mídia chama "especulação" se constitui uma máquina de captura ou a depredação de mais-valia nas atuais condições de acumulação capitalista, em que é impossível distinguir a renda do lucro. O processo de mudança das funções de gestão da produção e da propriedade capitalista, que havia começado a desenvolver no tempo de Marx está hoje totalmente concluídas. A "capitalista realmente ativo" é convertido, já dizia Marx, em "um simples  dirigente e administrador do capital", e o "proprietário de capital" em capitalista financeiro ou rentista. 
Reduzir o financiamento as suas funções especulativas significa negligenciar seu papel político como representante da "capital social" (Marx) que os industriais capitalistas não chegam, e não pode assumir, e a função de "coletivo capitalista" (Lenine) que é exercida, através das técnicas de governo e a sociedade como um todo. Ela também significa negligenciar sua função "produtiva", sua capacidade de gerar lucros.
O neoliberalismo como é chamado o modo redutor de capitalismo financeiro, este expressa o aumento da potência do relacionamento credor-devedor. O neoliberalismo gerou a integração do sistema monetário, bancário e financeiro mediante técnicas as quais refletem o compromisso de fazer com que a relação credor-devedor se constitua numa questão política importante, sem qualquer ambiguidade, uma relação de força baseada na 'propriedade'. Na crise, a relação entre proprietários ( de capital) e não-proprietários (de capital) amplia sua influência sobre todas as outras relações sociais.
 
 
Referência
LAZZARATO, Maurizio. La fabrique de l’homme endetté. Essai sur la condition néolibérale, Paris: Éditions Amsterdam, 2011